Adorável: Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: Adorável!
“Num belo dia de outono, saí para fazer compras. Paris estava adorável naquela manhã... etc”.
Um mundo de percepções vem bruscamente formar uma impressão ofuscante(ofuscar é no fundo impedir de ver, de dizer): o tempo, a estação, a luz, a avenida, a caminhada, os parisienses, as compras, tudo isso contido em algo que já tem vocação de lembrança: um quadro, em suma, o hieróglifo da benevolência ( Assim como Greuze o teria pintado), o desejo bem humorado. Paris inteiro á minha disposição, sem que eu queira alcança-lo; nem apita, nem cupidez. Esqueço todo o real que, em Paris, ultrapassa seu charme: a história, o trabalho, o dinheiro, a mercadoria, a dureza das grandes cidades; só vejo nele o objeto de um desejo esteticamente retido. Do alto do Pére-Lachaise, Rastignac desafiava a cidade: Agora, nós dois; eu digo a Paris: Adorável!
R. Barthes.
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